Universitária alemã visita áreas orgânicas em perímetro irrigado sergipano

Na Farmácia Viva Maddalena, Gilvanete, Meirinha, Daniela e Terezinha

Agricultura Orgânica é aquela que abdica do uso de defensivos industriais que podem ser tóxicos a quem vai consumir os alimentos, convive com a lavoura e ainda oferece risco de degradar o meio ambiente. Produzir nesse sistema exige conhecer métodos alternativos de como substituir os agrotóxicos e uma forma disso dar certo é trocando experiências com outros agricultores, através de uma Organização de Controle Social (OCS). A formalização desses grupos, em Sergipe, despertou o interesse da estudante alemã Maddalena Moel, há dois meses no Brasil pesquisando arranjos produtivos.

Formada a partir de uma associação ou cooperativa de agricultores familiares, a OCS precisa que, entre os participantes, exista uma relação de organização, comprometimento e confiança, para tanto conquistar a credibilidade da sociedade como para ser regulamentada. Comercializar seus produtos orgânicos diretamente com o consumidor exige que a organização esteja cadastrada junto à Superintendência Federal da Agricultura do seu estado, subsidiada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

A Companhia de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Irrigação de Sergipe (Cohidro), através de seus técnicos e engenheiros agrônomos, incentiva o surgimento destas organizações e faz um acompanhamento frequente destes arranjos produtivos nos polos de irrigação que administra, existindo hoje três desses grupos formalizados. O mais ativo deles fica no município de Lagarto, no Perímetro Piauí.

Maddalena Moel cursa Gestão de Desenvolvimento Internacional de Cadeias de Valores Sustentáveis, na Van Hall Larenstein University Of Applied Sciences da Holanda. Há dois meses ela faz estágio na Associação Biodinâmica de Botucatu-SP, instituição que a indicou o Instituto Social Micael, em Sergipe, para complementar sua pesquisa acadêmica na área. A Ong, com sede em Aracaju, já aplicou cursos de Agricultura Biodinâmica para técnicos da Cohidro e por esse motivo levou a visitante até o perímetro de Lagarto, no dia 13 de abril.

Biodinâmica é um modelo de Agricultura Orgânica criado por Rudolf Steiner em 1924, onde além do conceito de produção natural de alimentos, prima por uma propriedade rural em que várias modalidades agrícolas sejam exploradas de forma integrada, mas independente de elementos externos, em um nível de individualidade que não precise de qualquer tipo de insumo comercial. Maddalena Moel tem seu estudo voltado para esta metodologia produtiva, mas antes quer entender como acontece a convivência entre os agricultores que compõem as OCS.

“Me interessa mais a Agricultura Biodinâmica, mas quero entender como funciona o controle social da produção orgânica na prática, como ocorre através do OCS. Estou visitando algumas fazendas, fazendo um mapeamento da biodinâmica do Brasil. Já estive na Fazenda Toca, em Itirapina-SP e lá eles fazem agora a conversão à biodinâmica. Estive no Espirito Santo, vendo plantações de café orgânico e biodinâmico”, contou a visitante, curiosa em saber como os agricultores de Lagarto produzem para atender a demanda, como são aceitos os produtos pelos consumidores e qual o critério para escolher as culturas plantadas. Ela ainda informou que continuaria sua pesquisa viajando, ainda naquela semana, para o estado da Paraíba, onde iria conhecer uma fazenda de criação de cabras que produz queijos orgânicos.

Roteiro da visita

Visita à horta irrigada de Tal

O primeiro local visitado por Moel, no Perímetro Piauí, foi a Farmácia Viva de espécies fitoterápicas, anexa ao escritório da Cohidro em Lagarto. Esta atividade é desenvolvida em parceria com o Curso de Farmácia da Universidade Federal de Sergipe (UFS), que utiliza o espaço para pesquisa. “Esse aqui é um herbário mãe, cultivado no sistema orgânico e que abastece outras unidades de produção. A Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que 80% dos brasileiros usam algum tipo de planta medicinal e é esse conhecimento que disseminamos aqui, a partir de cursos extracurriculares”, explicou Rosimeire Barbosa (Meirinha), que coordena o espaço.

Gilvanete Teixeira, Gerente do Perímetro Piauí, reitera a importância dessa parceria com a UFS. “A Cohidro tem apoiado a Farmácia Viva, cedendo o espaço, a água para irrigação, insumos e mão de obra. Em troca tentamos inserir os agricultores nesse trabalho, para que eles contribuam com novas espécies medicinais (difundidas pelo conhecimento popular) e utilizem também as plantas para a própria saúde e nas suas plantações, já que tem espécies pesquisadas aqui que podem ser usadas como substituto aos agrotóxicos”, afirmou, dando como o exemplo as folhas do Nim, árvore asiática identificada como excelente inseticida natural.

Da sede da Cohidro, a visita seguiu para o lote irrigado de José Edmilson dos Santos (Tal), agricultor orgânico há mais de 15 anos e integrante da OCS. Ele explicou uma técnica alternativa de combate de pragas que Maddalena ainda não conhecia. “Aprendemos em um curso, um procedimento usando o arroz cozido, que é enterrado, depois lavado e usa esse líquido que sai, para combater fungos nas plantações”. Na entrevista feita pela estudante, o produtor contou que hoje o que dá mais trabalho é combater o pulgão que dá nos brócolis. “A gente incentiva um ao outro, chega um produtor aqui e eu ensino o que usei para combater um problema na cultura, mas a gente tem sempre a Cohidro para dar apoio técnico”, completou.

Maria Terezinha Albuquerque, Técnica da Gerência de Desenvolvimento Agrário da Cohidro (Gedea), acompanhou toda visita e explicou à estudante alemã como se dá o procedimento da legalização das OCS. “Existe uma Comissão Estadual da Produção Orgânica, formada por representantes das instituições governamentais e sociedade civil, que está visitando os grupos objetivando reestrutura-los. Mas também existe um movimento para a criação de Opac’s (Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade), que consiste em integrar, além dos agricultores, outros agentes da sociedade no controle, na produção e comercialização dos orgânicos. Nesse sistema a produção poderá ser comercializada também de forma indireta, em outros canais de comercialização e com certificação”, assinalou.

O final da visita se deu na propriedade de outro agricultor orgânico e membro da OCS, João Pacheco, que cultiva alimentos orgânicos há mais de 20 anos. “Participar da OCS é bom porque a gente aprende mais, trocando experiências, produzindo e comercializando alimentos sem agrotóxicos”, argumentou o produtor que é modelo a ser seguido no Perímetro Irrigado, recebendo sempre a visita de grupos de estudantes para conhecer sua propriedade, onde ele garante não ter uso de veneno. “Eu não vejo problema nenhum em virem visitar minha horta, porque sei que estou trabalhando correto”, destacou.

Maddalena Moel agradeceu a recepção que teve na Cohidro e todo apoio que tem recebeu do Instituto Micael, como também de Daniela Campos, colaboradora da Ong que a acompanhou na visita à Lagarto. “A experiência hoje aqui para mim foi muito boa. Depois do Brasil, espero conhecer trabalhos parecidos com os que estou vendo aqui, também na Argentina e no Chile”, completou a estudante, indicando quais serão os próximos países que irá dar continuidade à sua pesquisa.

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