Balde Cheio é levado a Canindé pela Cohidro

Programa produz leite em sistema de rotação de pastagens irrigadas
Produção de leite é principal atividade rural do Alto Sertão Sergipano – Foto Fernando Augusto (Ascom Cohidro)

Era junho de 2017, quando a gerência, técnicos agrícolas e agricultores irrigantes do Perímetro Irrigado Califórnia, em Canindé de São Francisco, foram até a unidade congênere do Jabiberi, em Tobias Barreto, conhecer o programa ‘Balde Cheio’ de produção de leite introduzido lá pela Companhia de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Irrigação de Sergipe (Cohidro), empresa que administra ambos polos irrigados. Depois disso, vários passos foram dados para que a transferência de tecnologia do sistema se tornasse realidade. No Alto Sertão foi criado um projeto piloto para os 13 novos micro-pecuaristas repliquem e organizem seus próprios piquetes, pasto e melhorem seus rebanhos.

Idas periódicas do técnico agrícola da Cohidro, José Reis Coelho, para Canindé (Alto Sertão Sergipano, há 213 Km da Capital) têm promovido a inserção do programa no perímetro Califórnia. Ele trabalhou na implantação do ‘Balde cheio’ no perímetro de Tobias Barreto (Centro Sul Sergipano, 123 km de Aracaju) em 2010 e acompanhou todo seu desenvolvimento até hoje, quando os 45 pequenos pecuaristas do Jabiberi produzem juntos uma média diária de 3,7 mil litros de leite, 73% a mais do que era gerado no início do programa.

“Tenho ministrado aulas, com teoria e prática, para os técnicos, estagiários e produtores do perímetro Califórnia. A parte mais teórica com os técnicos e a prática, como instalar uma cerca elétrica, com os produtores e técnicos. Que fazem parte da metodologia do ‘Balde Cheio’”, revelou Coelho. O técnico também expõe que a Cohidro está custeando a unidade piloto e elaborando os projetos de irrigação para os demais irrigantes interessados. “Os agricultores participantes, inicialmente visitados, são 13. Com estes, ficou certo de iniciar a elaboração de projetos para os interessados e a implantação de nova área para um produtor com recursos próprios”.

O ‘Balde Cheio’ consiste na criação de gado de leite em pequenos piquetes, onde estão plantados uma área de capim suficiente para que aquele rebanho se alimente durante um dia. No dia seguinte, os animais deixam aquele setor já ‘pastado’ e seguem para o seguinte. Em um ciclo que dura, a depender do projeto, cerca de 24 dias, a pastagem recebe irrigação contínua e adubação para rebrotar e estar pronta para novamente receber as vacas após elas terem percorrido todas estas divisórias, geralmente divididas por cercas de somente um fio de arame eletrificado.

Diretor de Irrigação e Desenvolvimento Agrícola da Cohidro, João Quintiliano da Fonseca Neto também acompanha o ‘Balde Cheio’ desde o começo no perímetro de Tobias Barreto. “É um programa criado pela Embrapa Pecuária Sudeste. Fomos lá em São Carlos (SP) ver de perto como ele era feito, a forma de manejo, a melhor escolha para os rebanhos e de que forma poderíamos adaptá-lo à realidade do clima do Centro Sul Sergipano, onde fica o Jabiberi. Agora é um novo desafio que a gerência do Califórnia e a empresa, por solicitação dos pecuaristas, abraçou. Se trata de um clima mais quente, seco, com excelente luminosidade e aliados a irrigação o que favorecem ao projeto. A ideia também é de aproveitar a vocação desses produtores e melhorar sua condição de produzir em pequenas áreas, além de diversificar a produção no perímetro irrigado”, considerou.

Diversificação
Eliane de Moura Moraes é gerente do Califórnia é uma das incentivadoras para que o ‘Balde Cheio’ tenha chegado em Canindé. Segundo ela, a motivação é criar mais uma alternativa de renda a partir do uso da irrigação. “Há um ano abrigamos um projeto de transferência de tecnologia da Embrapa Semiárido (Pretrolina-PE), criando dois campos experimentais de uva que produziram comercialmente bem em dezembro e o mesmo está acontecendo com a pera agora. Com o ‘Balde Cheio’, o produtor vai diversificar, vai ter a parte agrícola e a parte pecuária. Assim, eles dispõem de oferta de produtos diferentes do quiabo e da goiaba, cultivos mais explorados aqui, ganhando outros espaços no mercado e de menos concorrência”, acredita.

O presidente em exercício da Cohidro, Jorge Kleber Soares Lima lembra que a produção de leite já é a principal atividade rural do Alto Sertão Sergipano. “Onde não há irrigação e todos os pecuaristas dependem só da chuva para plantar o alimento do gado, eles já despontam com alta produtividade, atendendo laticínios e pequenas fábricas de queijo na região. Contando com a irrigação que a empresa fornece e com o programa ‘Balde Cheio’, a chance desses produtores terem sucesso é muito maior. Principalmente porque vão criar gado de leite em áreas muito menores e com grande produção de forragens. O que na pecuária extensiva fica mais difícil, principalmente naquela região”, avaliou.

Geraldo Mariano de Souza é produtor irrigante no Califórnia e já criava gado de leite de forma extensiva, em área de sequeiro. Com poucos dias já vê diferença na produção de leite na unidade piloto do Balde Cheio implantada em parte de seu lote, utilizando 1 hectare do total de 4. “Sim, está aumentando, porque apartou duas vacas e as que ficaram está mantendo mais leite que as seis. Era 40 litros, hoje tiro 80 ao dia”. Ele agora está procurando financiamento para aumentar o rebanho que hoje é de 10 animais: cinco vacas dando leite, quatro “solteiras” e um boi. “Vou fazer um empréstimo, vou trazer umas melhores, que deem mais leite. Quero ver se fico com 15, porque se ficar com 10, quando tiver apartada, eu não vou ter nada. Quero comprar outras vacas e descartar essas, fazer um negócio direito e organizado”.

Projeto
A Cohidro já levou às reuniões com os produtores, agentes de crédito do Banco do Nordeste (BNB) para tratar do financiamento das novas unidades do ‘Balde Cheio’. Em 2010, no Jabiberi, o Banco do Brasil com intermediação do Sebrae, financiou o investimento em equipamentos de irrigação e formação dos rebanhos, naquele polo irrigado onde só era praticada a agricultura usando irrigação por inundação. Mas para captar os empréstimos, cada produtor vai ter de contar com um plano de ação que enumere em que e quanto irá gastar. O engenheiro agrônomo e mestre em Irrigação da Cohidro, Luiz Gonzaga Luna Reis, também tem ido periodicamente à Canindé fazer projetos para as novas unidades do programa e ensinar os colegas locais à fazê-los também.

“A minha intenção é deixá-los prontos, inclusive com auxílio de um GPS, para levantar as áreas de campo, determinar a vazão do manancial a ser usado para irrigação e em cima disso, fazer um projeto completo de irrigação. Além das capacitações aos técnicos e estagiários em Agropecuária, o engenheiro agrônomo vai à campo fazer testes com a vazão que a água da irrigação chega em cada lote e então planejar os sistemas. “Para fazer uma coisa coerente com o que está acontecendo em campo. Diante disso aí, eu faço o projeto com mais segurança, coerente com o que está acontecendo na prática, me baseando na especificação do fabricante do aspersor”, completou.

Aprendizado
Turmas de estudantes do curso técnico em Agropecuária do Centro Estadual de Educação Profissional (CEEP) ‘Dom José Brandão de Castro’, situado no município vizinho de Poço Redondo, tem feito seus estágios curriculares no perímetro Califórnia. A cada visita do agrônomo Luiz Gonzaga, ou do técnico José Coelho, é uma nova lição de aprendizagem. Geovani Santana e seus colegas se preparam para logo entrarem no mercado do trabalho levando na bagagem o conhecimento com o ‘Balde Cheio’ para aplicar tanto no polo irrigado quanto em outras fazendas com acesso à água para irrigação.

“Para nosso conhecimento aqui em nossa região é de grande importância, porque nós trabalhamos em uma área de irrigação e nós, como estagiários, podemos nos inserir de acordo com o que nós aprendemos na nossa escola, no nosso curso, através dos técnicos da Cohidro. Nos adaptar melhor, conhecer os cálculos, formar um conhecimento maior em relação a implantação do processo de produção e de manejo de animais. Porque aqui faz parte do manejo, vai trabalhar com piquetes e esses piquetes, a gente vai fazer uma rotação de pastejo. E dentro dessa rotação é necessário que nós tenhamos um nível de irrigação melhor, que ele tenha uma vazão melhor para que os piquetes possam dar dentro do período de rotação e chegar ao seu nível de tamanho do capim”, explicou o agrotecnolando Geovani Santana.

 

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